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Brasil pode expandir biocombustíveis sem desmatar, mostra estudo

  • Foto do escritor: Solano Ferreira
    Solano Ferreira
  • 9 de out.
  • 6 min de leitura

Pesquisa do IEMA indica que país pode mais do que dobrar produção e consumo de bioenergia até 2050, aproveitando um quarto dos 100 milhões de hectares de pastos degradados existentes, com cultivos mais eficientes e novas tecnologias

 

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Imagem: Freepik


O Brasil pode mais do que dobrar a produção e o consumo de biocombustíveis até 2050 com salvaguardas socioambientais e recuperação de áreas naturais, sem que isso resulte em novos desmatamentos. De acordo com o estudo “Biocombustíveis no Brasil: alinhando transição energética e uso da terra para um país carbono negativo”, lançado nesta quinta-feira (9/10) e elaborado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema) com apoio do GT Clima e Energia do Observatório do Clima, o cultivo agrícola adicional para biocombustíveis pode utilizar entre 20 e 35 milhões de hectares (Mha), dentro dos 56 Mha de pastos degradados disponíveis para expansão da agricultura de uma forma geral.

 

Esse montante seria compatível com uma política que visa eliminar o desmatamento e recuperar áreas naturais, além de expandir a agricultura de alimentos e de outras matérias-primas. Dos 100 milhões de hectares (Mha) de pastos degradados existentes no Brasil (o que equivale a 12% do território nacional), 56 milhões poderiam ser estrategicamente direcionados para a expansão da agricultura brasileira, incluindo o cultivo de bioenergia. A pesquisa do IEMA mostra que a expansão de áreas de cultivos agrícolas para aumento da produção de biocombustíveis pode ser compatível com o “estoque” de áreas degradadas que o Brasil já possui. “Para isso, é necessário que haja uma aposta em cultivos de maior produtividade, como a macaúba, e o investimento em novas tecnologias, como o etanol de segunda geração”, ressalta Felipe Barcellos e Silva, autor do documento e pesquisador do Iema.

 

“A bioenergia tende, sim, a demandar uma quantidade relevante de terras”, afirma Silva. “Dessa forma, o país precisa ser rigoroso em políticas de monitoramento e regramento do uso do solo, além de outras salvaguardas importantes elencadas no estudo. A prioridade deve continuar sendo a produção de alimentos e a proteção e regeneração de áreas naturais, com os biocombustíveis ocupando apenas parte das áreas degradadas”, completa.

 

O estudo comparou seis cenários gerais de expansão da produção de biocombustíveis até 2050, cada um com diferentes combinações de matérias-primas e tecnologias para a produção de etanol, biodiesel, diesel verde e combustível sustentável de aviação (SAF). Embora a matriz de bioenergia seja bastante diversificada, o estudo concentrou-se nesses biocombustíveis por seu potencial de uso em larga escala no setor de transportes e por exigirem maior volume de matérias-primas vegetais, fator que pode intensificar a pressão sobre o uso da terra nos próximos anos.

 

Desses seis cenários, quatro “couberam” dentro do limite de 56 milhões de hectares (Mha) proposto, demandando uma área de 20 a 35 Mha, aproximadamente. São eles:


• Foco em Cana/Macaúba 2050 – 21 milhões de hectares: 100% do etanol, do diesel verde e do SAF produzidos a partir da cana-de-açúcar e 100% do biodiesel oriundo da macaúba;


• Foco em Macaúba 2050 – 26 milhões de hectares: 100% do biodiesel, do diesel verde e do SAF produzidos a partir da macaúba e 100% etanol oriundo da canade-açúcar;


• Foco em Cana/Soja/Macaúba 2050 – 27 milhões de hectares: 70% do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e 30% a partir do milho de segunda safra, biodiesel oriundo da soja e da macaúba em proporções iguais e 100% do diesel verde e do SAF produzido a partir da cana;


• Foco em Cana 2050 – 34 milhões de hectares: 40% do etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e 60% a partir do milho de segunda safra, 100% do diesel verde e do SAF oriundos da cana e 100% do biodiesel produzido a partir do óleo de soja.

 

Essas áreas adicionais até 2050 se somariam aos cerca de 31,4 milhões de hectares utilizados em 2024 para produção de bioenergia, e ainda contemplam a silvicultura — florestas plantadas, principalmente de eucalipto ou pinus, que geram lenha, carvão vegetal ou lixívia (um subproduto da produção de papel e celulose).

 

Diferentes cultivos e tecnologias

 

Em relação às opções com cana-de-açúcar, os cenários acima consideram tanto o etanol de primeira geração, produzido hoje, quanto o de segunda geração, feito por meio do bagaço da cana e mais avançado tecnologicamente. Além disso, também foi observado que os dois tipos de etanol podem ser diretamente utilizados como combustível ou insumo para a produção de diesel verde e SAF, via rota tecnológica denominada ATJ (Alcohol to Jet).

 

Já o óleo de soja pode dar origem ao biodiesel, como feito atualmente, mas também ser direcionado para a fabricação de diesel verde e SAF, ambos produzidos simultaneamente em uma biorrefinaria. Também foi considerado nos cenários acima o cultivo da soja em rotação de cultura com o milho, a partir do qual também se produz etanol de primeira geração, alternativa que vem crescendo no Brasil. Este etanol pode, por sua vez, servir para produzir diesel verde e SAF. Essa prática seria uma forma de “economizar” território.

 

Por fim, a macaúba foi considerada como alternativa para produção de óleo vegetal por ser capaz de fornecer cerca de 4 mil kg de óleo por hectare plantado, enquanto a soja fornece cerca de um décimo disso, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Além disso, comparada com outras espécies de produtividade similar, a macaúba é nativa do Brasil e presente em quase todo território.

 

Cenários com foco na soja

 

Além dos quatro cenários em que é possível combinar expansão da bioenergia com o objetivo de zerar o desmatamento e regenerar áreas naturais no Brasil, o estudo trouxe dois cenários em que esses objetivos se tornam mais difíceis ou impossíveis de serem cumpridos.

 

O cenário “Business as Usual (BAU) 2050” mantém a tendência de mercado atual até 2050, ao prever 100% do biodiesel, do diesel verde e do SAF produzidos a partir de óleo de soja, 20% do etanol a partir do milho e 80% de etanol de cana. Com isso, a demanda por área adicional chegaria a 97 milhões de hectares, muito acima do estoque de terra degradada disponível — o que resultaria, portanto, na necessidade de abrir novas áreas naturais.

 

Já no cenário “Foco na Soja 2050”, que permanece centrado na soja, mas aproveita todo potencial de produção de etanol, diesel verde e SAF a partir do milho produzido em rotação de cultura, seriam necessários 55 milhões de hectares adicionais, número próximo ao estoque disponível para expansão da agricultura. Porém, a produção de alimentos, que tem prioridade em relação à bioenergia, e a produção de matérias-primas para outras indústrias, como a têxtil, também deveriam ser acomodadas dentro desses mesmos limites.

 

Premissas para expansão da bioenergia

 

O estudo tem como premissa uma meta de redução das emissões em todos os setores de 92% até 2035 em relação a 2005, conforme consta na proposta do OC para a segunda Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil no âmbito do Acordo de Paris; um cenário de mitigação de emissões do uso e produção de energia em paralelo a um crescimento médio do PIB de 2,1% ao ano até 2050, conforme publicado no estudo “Futuro da Energia: visão do Observatório do Clima para uma transição justa no Brasil”; além das diretrizes e salvaguardas socioambientais propostas no mesmo relatório.

 

Com isso, o consumo de biocombustíveis no país deverá mais do que dobrar, crescendo de 102 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (Mtep) em 2024 para 221,1 Mtep em 2050.Paralelamente, a matriz de bioenergia também deverá ser mais variada, passando a contar com novas fontes energéticas, como o diesel verde e o SAF.

 

Mesmo com esse crescimento da oferta de bioenergia, o documento prevê um compromisso de desmatamento zero em todos os biomas até 2030, com exceção de uma taxa residual de perda de área natural de, no máximo, 100 mil hectares (1.000 km²) anuais, conforme indicou o OC em sua proposta para a segunda NDC.

 

Sobre o Observatório do Clima – Fundado em 2002, é a principal rede da sociedade civil brasileira com atuação na agenda climática. Reúne hoje 162 integrantes, entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais. Seu objetivo é ajudar a construir um Brasil descarbonizado, igualitário, próspero e sustentável. O OC publica desde 2013 o SEEG, estimativa anual das emissões de gases de efeito estufa no país.

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