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Quando uma bandeira estrangeira desmascara o falso patriotismo

  • Foto do escritor: Solano Ferreira
    Solano Ferreira
  • 9 de set.
  • 3 min de leitura

Por Joel Elias* - DRT/AP -138


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No dia em que o Brasil celebrou sua independência, a Avenida Paulista, em São Paulo (SP), ofereceu uma cena que fere o senso comum e o senso histórico: sob gritos de “patriotas”, ergueu-se uma bandeira gigante — não a verde‑amarela, mas a dos Estados Unidos. A imagem, registrada em 7 de Setembro de 2025, é mais que um detalhe pitoresco; ela condensa uma contradição que atravessa o movimento bolsonarista e o expõe em sua essência: um pseudo patriotismo que rende continência a interesses externos, enquanto proclama defender a soberania nacional. Os números ajudam a dimensionar o palco do paradoxo.


Estimativas da USP (42,2 mil) e do Poder360 (48,8 mil) indicam um contingente expressivo. Mas o que saltou aos olhos foi o protagonismo de uma bandeira estrangeira em pleno Dia da Independência do Brasil tomando conta da paisagem. Numa data que simboliza a autonomia do país, a opção por celebrar outro estandarte não é “mera estética”. É gesto político, com todas as letras, pois subverte o significado da data e esvazia o conceito de patriotismo.


Patriotismo, afinal, é lealdade à própria nação — às suas instituições, à sua cultura, à sua Justiça. É compromisso com sua autodeterminação. Ao exibir, no ápice do rito cívico, o símbolo de uma potência que historicamente projetou poder sobre a periferia do sistema internacional — e que hoje tensiona a política brasileira —, o ato desnuda um duplo discurso. Não se pode, sem violência ao sentido das palavras, jurar amor ao Brasil enquanto se hasteia a tutela alheia. E o contexto geopolítico torna a cena ainda mais eloquente.


Recentemente vieram à tona pressões do presidente americano, Donald Trump, sobre temas internos do Brasil: do processo por tentativa de golpe envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro à pauta de anistia para autores do ataque de 8 de janeiro de 2023. O Palácio do Planalto reagiu criticando a ingerência sobre a Justiça brasileira, após sanções direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes. O chanceler Mauro Vieira foi taxativo: não há diálogo possível quando a pauta é interferência judicial. Análises na imprensa internacional mencionaram o “efeito intimidação”, um ruído externo que contamina a devida separação entre política, justiça e soberania.


É aqui que a imagem da Paulista ganha contornos de diagnóstico. O apelo por “intervenção de Trump” em cartazes, os agradecimentos em inglês, a reverência ao pêndulo eleitoral norte-americano — tudo isso revela um alinhamento que busca na Casa Branca a solução para impasses domésticos. Trata-se de uma inversão perigosa: em vez de fortalecer instituições brasileiras, aposta-se na tutela de um ator externo para redirecionar a rota da Justiça e da política nacional. A defesa de anistia ampla para golpistas, travestida de pacificação, serviria apenas para enterrar a responsabilização e corroer a confiança no Estado Democrático de Direito.


A pergunta, portanto, impõe-se com brutal clareza: patriotas de quem? A liturgia do 7 de Setembro não tolera ambiguidade. A independência é um ato de vontade própria, não de procuração diplomática. Ao preferir o manto de outra bandeira, a manifestação escancarou a natureza de sua devoção: não ao Brasil concreto — com suas leis, freios, contrapesos e memória democrática —, mas a um projeto que flerta com a tutela externa para redesenhar os limites da soberania.


Não é de hoje que o bolsonarismo opera nessa chave simbólica. O verniz nacionalista vem acompanhado de um cosmopolitismo assimétrico que seleciona, à conveniência, o farol estrangeiro a seguir — desde que confirme seu roteiro de excepcionalismo e confronto com as instituições. O resultado é um “patriotismo de outsourcing”: terceiriza-se a legitimação política e judicial a potências externas, enquanto, internamente, desqualifica-se o Supremo, o Congresso, a imprensa e a própria ideia de accountability.


A história é severa com disfarces. Ela registra que independência sem soberania é palavra vazia; e que soberania sem compromisso com a lei e a democracia degrada-se em slogans. No 7 de Setembro de 2025, a Avenida Paulista funcionou como espelho: refletiu a distância entre o discurso de defesa da pátria e a prática de cortejar ingerências que fragilizam os pilares do Estado brasileiro. Ao fim, a bandeira gigante não foi um adorno: foi a confissão explicita de traição à pátria. E o pior, eles não substituíram apenas a cor da bandeira, eles substituíram a própria bandeira — só para lembrar o jargão que eles mesmo usam dizendo que a bandeira brasileira nunca será vermelha.

Que este episódio sirva de alerta. Patriotismo não se mede por camisetas de seleção nacional, hinos de ocasião ou coreografias de rua. Mede-se por lealdade institucional, respeito à Constituição e recusa inegociável a qualquer tutela que subordine o Brasil a desígnios alheios. Entre a independência e o servilismo, a esquerda e a direita, há um denominador comum que deveria ser inquebrantável: a soberania. Quem a relativiza, em nome de qualquer projeto de poder, não a defende — a renega.


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*Joel Elias é jornalista atuante na Amazônia

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